Após greve vitoriosa trabalhadores do transporte de Curitiba têm 10,5% de aumento
Trabalhadores aceitaram proposta do sindicato patronal e linhas de ônibus devem voltar a operar ainda nesta quarta-feira. Esquema para o retorno dos veículos não está definido
Com o novo acordo, os trabalhadores vão receber reajuste salarial de 10,5%, vale-alimentação de R$ 200 e abono único de R$ 300, a ser pago em junho. Essa proposta foi apresentada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) nesta quarta-feira, na audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT). A reunião começou ao meio-dia e foi suspensa às 13 horas por causa da assembleia da categoria e será retomada após a deliberação dos trabalhadores, que aceitaram o acordo.
Sem ônibus
A greve de motoristas e cobradores deixou Curitiba completamente sem ônibus há dois dias, apesar de a Justiça do Trabalho determinar que 70% da frota estivesse nas ruas em horário de pico. Uma decisão da justiça eleitoral elevava o percentual de veículos em circulação para 80%.
Assim como ocorreu na terça-feira (14), a quarta-feira (15) começou com terminais vazios, ruas mais movimentadas e radiotáxi com linhas congestionadas. Diferentemente do início do primeiro dia de greve, nesta quarta-feira em alguns locais há a possibilidade de se usar o transporte particular. Não havia ônibus trafegando em Curitiba e RMC até as 11h45, de acordo com a Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs).
O Sindicato das Empresas de Transporte Urbano e Metropolitano de Passageiros de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp) afirmou que ônibus do transporte coletivo de Curitiba e região metropolitana foram depredados nas garagens das empresas. O Sindimoc confirmou que alguns grevistas cometeram excessos, mas disse que não se trata de orientação da entidade.
Ao todo, 2,3 milhões de usuários do transporte coletivo em Curitiba e região metropolitana ficaram sem ônibus, segundo a Urbanização de Curitiba S.A. (Urbs).
Transporte particular
Após ser autorizado pela Urbs na tarde de terça-feira, o serviço de transporte particular era uma das alternativas encontradas pela população para o deslocamento nesta quarta-feira.
Proprietário de uma Kombi, Gerci Santos conseguiu liberação na Urbs nesta quarta e realizava o mesmo percurso da linha Fazendinha pela manhã. Em cerca de meia hora na Praça Rui Barbosa, ele conseguiu sete passageiros. Entre eles estava o vigilante Djalma Soares Lima. “Entrei no trabalho às 19h e fiquei até as 7h, mas fui de carona e se não tivesse lotação não sei como faria para voltar para casa”, diz.
Outro que também estava liberado para operar com lotação era Paulo Neves. Ele reclamou da demora da Urbs em liberar os veículos particulares na terça-feira. “Em outras greves o processo foi mais rápido”, conta Neves. Operando na linha Caiuá, ele rapidamente encontrou uma passageira, a doméstica Vilma Pereira. “Vim de carona com meu genro até o Centro, mas precisava ir para o Campina do Siqueira. Achei que teria alguns ônibus, mas felizmente encontramos a lotação”, comenta.
Mesmo sendo uma alternativa, os usuários ficam inseguros com o transporte. “Minha preocupação é não conseguir a van na volta”, diz Vilma. Na Praça Rui Barbosa, uma das vans que estava realizando a linha Fazendinha chegou por volta das 7h30 com passageiros, mas não retornou ao bairro porque o dono do veículo tinha uma consulta médica e só voltaria a operar no fim da manhã.
Os proprietários de carros particulares podem cobrar até R$ 5 por pessoa. Para poder rodar, é preciso obter a autorização da Urbs. Porém, caso os ônibus voltem a circular nesta quarta-feira, conforme decisão judicial, o serviço de transporte particular deve cessar imediatamente.
A procura por empresas que oferecem serviços de ônibus e vans fretadas havia crescido muito na terça-feira. As empresas de fretamento não conseguiram atender a demanda, porque já não havia veículos disponíveis para o serviço.
Desconto por falta ao trabalho depende do bom senso do empregador
Como a legislação trabalhista brasileira não contempla especificamente qual deve ser o procedimento das empresas em caso de greve no transporte público, cabe às companhias definirem se irão ou não descontar a ausência ao trabalho do salário do trabalhador. Advogados orientam que o bom senso deve guiar a decisão.
Trânsito
A falta de ônibus e a dificuldade para conseguir um táxi continuam causando reflexos no trânsito de Curitiba. Muitos moradores da capital e da RMC tiveram de tirar os veículos da garagem para ir ao trabalho ou levar alguém da família. Pela manhã, o movimento era bastante alto em diversas regiões da cidade e, apesar da lentidão, não houve trechos onde o tráfego não fluiu.
Para melhorar a fluidez, as obras no anel viário do Centro de Curitiba e em ruas importante da capital foram suspensas até o fim da greve. A informação foi divulgada pela prefeitura de Curitiba nesta quarta-feira. Como mais carros têm circulado, porque a população não encontra ônibus, a expectativa é de que o tráfego apresente melhoras, principalmente, nos bairros Rebouças, Alto da XV, Alto da Glória, Centro Cívico, Bom Retiro, Mercês, Batel e Água Verde.
Máquinas serão retiradas de várias ruas importantes da cidade, tais como Roberto Barrozo, Aristides Teixeira, Comendador Fontana, Nicolau Maeder, Mauá, Amâncio Moro, Ubaldino do Amaral, Omar Sabbag, Engenheiros Rebouças, Brigadeiro Franco, Tenente João Gomes da Silva, Júlio Perneta, Desembargador Motta, Iguaçu, Buenos Aires, Brasílio Itiberê, Omar Sabbag, Ubaldino do Amaral, 7 de abril, Alberto Bolinger, Augusto Severo, Campos Sales, Lysimaco Ferreira da Costa, Domingos Nascimento, Teffé e João Antoniassi.
As obras de recapeamento da Avenida Iguaçu também foram suspensas e as da Rua Jacarezinho devem terminar ainda nesta quarta. De acordo a prefeitura de Curitiba, agentes da Secretaria Municipal de Trânsito fazem operação especial para organizar o tráfego.
Táxi
Assim como na terça-feira, o curitibano enfrenta dificuldade de conseguir contato com as empresas de rádiotáxi da capital nesta quarta. Há táxis em alguns pontos do centro da cidade, mas em locais mais movimentados – como na Praça Rui Barbosa e em frente ao Shopping Mueller, há fila de usuários. Nos locais onde há táxi, a maioria não está vinculada a empresas de radiotáxi.
Na terça-feira, a dificuldade de pegar um táxi durou o dia todo. O taxista Edson Fernandes, associado de uma das seis radiotáxi da cidade, disse que à noite eles ainda trabalham para tentar diminuir a fila de espera por uma corrida, que em alguns casos chegava a várias horas.
As associações não estão agendando corridas por conta da grande demanda. O dirigente de uma delas disse que não há condições, desde o início da greve dos ônibus, de garantir o compromisso de pegar um usuário em determinado horário. A dica dada por alguns taxistas é ligar uma hora antes para pedir a corrida e tentar negociar que ela chegue no horário.
Os táxis estavam autorizados a circular nas canaletas dos biarticulados, já que a situação do tráfego na capital foi caótica na terça-feira. A autorização foi confirmada por parte da Secretaria Municipal de Trânsito e também pela Urbanização de Curitiba S.A. Cumprindo-se a decisão da Justiça de que ao menos 50% dos ônibus voltem a circular nesta quarta-feira, os táxis e outros veículos não poderão mais circular nas canaletas.
Segundo a Urbs, os usuários do serviço de táxi devem exigir que os motoristas cobrem o valor mostrado no taxímetro. Não está autorizada cobrança de outra forma. Se algum taxista estiver cobrando valores fixos, desconsiderando o taxímetro, o passageiro deve exigir recibo, marcar o número do táxi e fazer uma denúncia no telefone 156 (da prefeitura de Curitiba).
A grande procura de táxis nesta terça-feira fez lembrar que a Câmara de Vereadores da cidade discute um projeto de lei que prevê um aumento da frota, que hoje é de 2.252 veículos. Segundo a proposta, poderiam ser autorizadas mais 243 licenças de operação se for estabelecido o critério de um táxi para cada 700 habitantes da cidade, que, segundo o último dado do IBGE, tem 1,7 milhão de pessoas. Outra alternativa seria estabelecer o critério de um táxi para 500 habitantes, o que faria a atual frota aumentar em mais 1.241 veículos, chegando ao total de 3.493 carros.
Tentativa de acordo
Uma audiência de conciliação entre o sindicato dos trabalhadores e o das empresas de ônibus teve início ao meio-dia desta quarta. O Ministério Público de Trabalho (MPT) apresentou nova proposta ao Sindimoc e a oferta foi votada em assembleia, na Praça Rui Barbosa. A proposta foi encampada pelo TRT e pelo sindicato das empresas de ônibus. A audiência no TRT foi suspensa e foi retomada após a assembleia da categoria. O reajuste salarial será de 10,5% e o vale-alimentação sobe para R$ 200. As empresas também irão pagar abono de R$ 300 (parcela única), em junho.
Antes da audiência, o desembargador Altino Pedrozo dos Santos, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), ouvia as propostas dos sindicatos separadamente. Santos conversou com representantes do Sindimoc e depois se reuniu com o Setransp e também com a Urbs.
DATA
15 fevereiro 2012
FONTE
Gazeta do Povo